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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A esquerda judaico-alemã “antirracista” e suas raízes na Stasi


“Aquela força corrosiva que destrói os povos”

Para a alemã (*) profissional “antirracista” Anetta Kahane, a semana passada foi uma ótima semana. Pois uma de suas muitas organizações foi escolhida para executar no Facebook uma campanha para eliminar qualquer oposição contra a invasão de imigrantes. (*) Não se irritem com a descrição de Anetta Kahane como “alemã”. Ao longo do texto o autor deixa bem claro a qual grupo étnico ela pertence – NR.

… e seu programa para destruir as etnias

Este duro golpe contra a liberdade de expressão no Facebook tornou-se uma das mais altas prioridades do governo alemão após encontro entre Angela Merkel e Mark Zuckerberg, e significa que doravante toda crítica contra a invasão de imigrantes será muito restrita. Tal vasta iniciativa irá necessitar de um exército de funcionários leais e confiáveis, e quem seria melhor do que a senhorita Kahane e sua “Rede contra Nazistas”, para mostrar que eles levam a sério tudo isso. Apenas para assegurar que os alemães comuns entendam corretamente a mensagem, o governo está processando o líder do movimento dissidente PEGIDA por causa de comentários ofensivos aos imigrantes, postados no Facebook.

No lucrativo segmento do antirracismo, Anetta Kahane é sem dúvida alguma uma empresária esperta e visionária. Ela reconheceu, bem antes dos demais, a grande soma de dinheiro que é possível faturar ao transformar a preocupação do cidadão comum diante da imigração, como externalização do medo por causa dos “neonazistas”. E ela trabalhou com afinco para levantar essa indústria, transformando-a na atual máquina de dinheiro.

A exemplo de muitos outros líderes judaicos na Europa de hoje, Kahane fez comentários bastante ousados sobre seu desejo em destruir a Europa branca. “Deve-se de fato mudar a política de imigração na Europa. Isso é muito importante; deve-se mudar o sistema de ensino e a ordem natural dos Estados. Eles não são mais apenas branco ou apenas sueco ou apenas português ou apenas alemão. Eles são locais multiculturais no mundo.”

Ao fundar uma organização denominada Fundação Antonio Amadeu em 1998, ela conseguiu um trampolim para se tornar famosa. Esta tropa bem financiada tem como objetivo difamar toda e qualquer resistência branca contra a imigração como “neonazista”, e trabalha para isso em estreita cooperação com revistas como a Stern, e o jornal Die Welt. Criada segundo o modelo da Campanha Stephen-Lawrence na Grã-Bretanha, ela recebeu um enorme aporte do governo alemão, da União Europeia e de diversas ONGs internacionais, incluindo a Ford Foundation.

Seu trabalho lhe trouxe muita fama, e a mídia a procura com frequência devido ao seu posicionamento. Ela atende com prazer. Exceto talvez por uma coisa.

Ela foi colaboradora da Stasi, o ministério para segurança do Estado da antiga Alemanha Oriental, entre 1974 e 1982. Desde os 19 anos, Kahane atuou sob o codinome “Victoria” e foi uma entusiasmada informante ou funcionária não registrada, e forneceu relatórios secretos mensais sobre a confiabilidade política de dezenas de colegas da faculdade, jornalistas, atores e escritores, dentre os quais ela se infiltrou.

O próprio arquivo pessoal de Kahane, na Stasi, mostra que seu oficial superior a considerava uma pessoa solícita e confiável. Seu papel como informante de confiança no aparato da Stasi significava privilégios – que eram negados à maioria dos cidadãos alemães da Alemanha Oriental (DDR), como viagens ao exterior. Na embaixada da DDR em Moçambique, ela trabalhou como tradutora e denunciou seus colegas locais. Ela foi remunerada pelos seus serviços com dinheiro e “presentes”.

Colaboradores como Kahane gozavam de um terrível poder. A pichação de críticas contra o regime poderia resultar em anos de cadeia e trabalhos forçados. Uma falsa palavra no lugar errado poderia acabar para sempre com uma carreira.

E ela estava longe de ser a última. John Koehler, autor do livro The Stasi, estima que ao incluir os colaboradores em tempo parcial, teríamos uma proporção de um denunciante para cada 6,5 cidadãos.  Apenas a Coréia do Norte montou uma estrutura de semelhante proporção para vigiar seus cidadãos

Outro judeu famoso da DDR foi revelado como ex-informante da Stasi. Seu nome é Gregor Gysi; leitores do Occidental Observar lembram-se talvez de um vídeo no Youtube, onde este homem regozijou-se p’ra valer sobre a perspectiva de mudança racial de alemães por invasores imigrantes:

(Veja também este artigo de Max Blumenthal, um crítico de Israel. Blumenthal escreve que “Gysi se sente obrigado a tocar avante a campanha para repressão de nossa liberdade de expressão.” Enquanto ele estiver a favor da destruição da Alemanha étnica, Gysi é uma sem dúvida alguma um patriota judeu.)

Após a reunificação (parcial – NR), Gysi tentou convencer as autoridades soviéticas a esconder ou destruir os arquivos da Stasi que identificavam os colaboradores. Finalmente ele não conseguiu, mas ele fez de tudo para abafar juridicamente as informações sobre o período em que atuou como informante da Stasi. Ele se recuperou deste escândalo e lidera hoje o partido Die Linke ((Os esquerdistas – NR), terceiro maior partido da Alemanha.

Assim como Anetta Kahane, Gregor Gysi gozou de uma juventude privilegiada como membro de um alto funcionário judeu do partido comunista. O pai de Gysi, Klaus, foi membro do Politbüro e amigo íntimo do líder da DDR, Erich Honecker. Klaus Gysi ocupou vários cargos público no estrangeiro, incluindo a função de embaixador no Vaticano.

E eles estavam longe de serem os únicos. Judeus alemães foram em massa para a DDR após a guerra, e muitos conseguiram uma rápida ascensão dentro do partido. Como na União Soviética, nas décadas iniciais, e em toda a Europa do Leste após a Segunda Guerra Mundial (por exemplo na Polônia, veja aqui, pág. 66), judeus se tornaram importantes no aparato da polícia secreta. Exemplo notório foi o coronel-general Markus Wolf, chefe da diretoria da Stasi para espionagem no estrangeiro.

Judeus eram pequenas engrenagens importantes no aparato de repressão dos comunistas, pois eles não eram alemães étnicos e por isso considerados de confiança por Moscou. Foi um papel para o qual há inúmeros paralelos históricos – os judeus como leais guardas para um senhor estrangeiro, sobre um povo mal humorado e rebelde.

Quando o muro de Berlim caiu em 1989, houve uma imensa aclamação por justiça contra os comunistas. Mas a busca por justiça foi um caso vacilante. Muitos daqueles com culpa no cartório escaparam da punição, pois seus casos empacaram e foram deixados de lado. Isso vai totalmente contra ao que aconteceu ao final da Segunda Guerra Mundial, quando muitos dos próprios cidadãos foram presos no Leste, pois 11 Campos de Concentração foram abertos novamente ou tiveram que ser reconstruídos, incluindo Buchenwald e Sachsenhausen.

Nos cinco anos após 1945, cerca de 160.000 alemães desapareceram nestes campos. Dentre estes, 65 mil morreram, 36 mil foram transferidos para a União Soviética, e 36 mil foram libertados.

Embora muitos judeus gozassem de uma vida privilegiada na antiga DDR, eles persistiam na alegação de que lá, suas vidas foram estragadas por um antissemitismo que era tão ruim como em qualquer outro lugar.

Ao que concerne Anetta Kahane, ela também foi uma vítima na DDR e obrigada a esconder ou enterrar sua identidade judaica. Mas na realidade, o dogma socialista desaprovou a etnicidade como uma construção social superada e que pertence à lixeira da história.

Kahane incorpora a identificação judaica enganosa sob o comunismo – e frequentemente uma enganação de sua própria natureza (veja o link acima em diferentes locais), onde ela afirma: “Meus pais foram marxistas leninistas e não tinham relação com religiões. Mas meu pai falava sempre sobre seus avós, que para ele era o lado romântico do judaísmo.” Mas aqui existe uma raro paradoxo – onde a religião foi derramada, a identidade étnica se preservou intacta. Pois enquanto muitos judeus alegam ter sido perseguidos, eles parecem que não tiveram problemas para perseguir interesses étnicos e ocupações judaicos.

O pai de Kahane, o famoso jornalista Max Kahane, é um exemplo singular. Ele cobriu o caso de Adolf Eichmann, o alegado criminoso de guerra nazista. O “antissemitismo” institucional na DDR não impediu-o de escrever sobre esta história desde seu início até o fim, e de viajar da Argentina até Israel para acompanhar o processo.

Outro colaborador informante da Stasi era o líder da comunidade judaica de Berlim Oriental, Dr. Peter Kirchner. Embora ele fosse publicamente a favor de Israel, ele era também informante e conhecido através do pseudônimo “Burg”. Ele parece não ter sofrido.

O historiador judeu e produtor de documentários, Helmut Eschwege, é mais um deles. Durante todo o período na DDR, ele foi um expoente no apoio a Israel, e afirmou em sua autobiografia ter sofrido muito por causa do antissemitismo. É uma vergonha que ele não tenha sido impelido a descrever neste livro seu envolvimento com a Stasi, seu papel de informante como “Ferdinand”, descoberto posteriormente. (Em seu último encontro com seu oficial superior a 15 de novembro de 1989, ele entregou o estatuto do novo partido de esquerda, que deveria substituir os comunistas)

Existem inúmeros exemplos semelhantes de judeus que conseguiram sucesso na mudança do comunismo. Tomemos o velho companheiro de Kahane e Gysi, o famoso autor estalinista Stefan Heym. Após ele ter aguardado em segurança nos EUA o término da guerra, ele retornou para a DDR e na posição de um autor de renome, como um fanático cheerleader do regime. Após a morte de Stálin, ele escreveu que o assassino de milhões de pessoas era “o homem mais amado de nossa época”. Após a reunificação, ele não perdeu tempo em redescobrir seu cartão de vítima judaica. Em 1995, ele disse: “O clima político é muito semelhante àquele de 1933, e isso me assusta.”

Onde estava então o antissemitismo na DDR? Quanto mais se revolve este tema, parece ficar mais claro que os judeus não foram objetos de uma perseguição, mas ao mesmo tempo não tinham o status especial que eles acham que teriam por se auto denominarem “vítimas especiais” do holocausto. Na DDR era ensinado que os comunistas foram aqueles perseguidos pelos nazistas.

Principalmente dois elementos do política da DDR contrariavam os judeus e foram caracterizadas como antissemitismo. Primeiro foi a recusa da DDR em reconhecer Israel – o que era algo consistente com sua posição de adversário da potencia colonialista apoiada pelos EUA.

O segundo foi a recusa da DDR em pagar reparações pelo holocausto. Enquanto Israel recebeu após 1945 imensas subvenções e fornecimento de material bélico por parte da Alemanha Ocidental, a parte Oriental recusou-se a pagar um tostão que fosse. Isso enfureceu os judeus e levou-os a classificar ambas posições como “antissemitismo”.

Tanto Anetta Kahane quanto Gregor Gysi se reformularam sem qualquer problema na nova e desenvolvida Alemanha e tiveram grande sucesso. Ambos superaram seu passado como “informantes”, se concentraram no presente e estão convencidos de que a mancha sobre a sociedade alemã somente poderá ser limpa através da imigração em massa de hordas estrangeiras provenientes do Oriente Médio.

A erradicação da Alemanha branca não é seu único entusiasmo. Eles são ambos defensores incansáveis de Israel e estão sempre dispostos a caçar não apenas seus próprios companheiros da esquerda – além de vigiar e limpar – mas também outros judeus que não permanecem na linha.

Gysi esclarece que antissionismo não pode ser mais uma posição aceitável para a esquerda e principalmente para o partido Die Linke. Ele ressoa as palavras de Angela Merkel, à medida em que afirma que “a solidariedade para com Israel” seria uma parte importante da “razão de ser do Estado” alemão.

Ele levou a cabo diversas campanhas contra membros do partido Die Linke, acusados de apoiar a campanha BDS (boicote, desinvestimento e sanções) contra Israel, e também contra todos aqueles que se uniram à flotilha de libertação de Gaza. Suas campanhas tiveram sucesso e resultaram em cancelamentos de palestrantes e boicote ao autor do livro “A Indústria do holocausto”, Norman Finkelstein, e ao crítico de Israel, Illan Pappe, ambos conhecidos dissidentes judeus.

Ao que concerne Anette Kahane, qual efeito tiveram seus relatos sobre a vida das pessoas por ela denunciadas? Um bom exemplo poderia ser tomado no destino do jovem e talentoso ator Klaus Brasch, que se encontrou com Anette em 1976, juntamente com seu irmão Thomas.

Seu relatório confidencial sobre eles contém a seguinte passagem: “Pertencem ao rol de inimigos da DDR principalmente Klaus Brasch e Thomas Brasch”. Seria interessante perguntar a Klaus Brasch sobre o efeito que o relatório de Kahane teve sobre sua carreira, mas infelizmente isso não é mais possível. Thomas Brasch faleceu em 2001 devido a um ataque cardíaco. Seu irmão Klaus faleceu em 1980 devido a uma overdose.

Francis Carr Begbie

The Occidental Observar, 5/10/2015.

Vejam também este vídeo:

e este aqui:

Segue respectiva transcrição e tradução:

“I think there’s a resurgence of antisemitism because at this point in time Europe has not yet learned how to be multicultural, and I think we’re gonna be part of the throes of that transformation, which must take place. Europe is not going to be the monolithic societies they once were in the last century. Jews are going to be at the centre of that. It’s a huge transformation for Europe to make. They are now going into a multicultural mode and Jews will be resented because of our leading role, but without that leading role and without that transformation Europe will not survive.”

“Eu penso que existe um renascer do antissemitismo, porque a Europa não aprendeu ainda até o momento a ser multicultural, e eu penso que nós seremos parte do nascimento desta transformação, que terá que acontecer. A Europa não será a sociedade monolítica como foi no último século. Os judeus estarão no centro deste processo. É uma enorme transformação para a Europa. Eles adentrarão agora em um modo multicultural, e existirá um ressentimento contra os judeus devido ao nosso papel de liderança, mas sem esta liderança e sem esta transformação, a Europa não sobreviverá.”

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Quando a técnica vira álibi moral.



Há um momento em que o discurso jurídico deixa de ser apenas técnica e passa a ser sintoma moral. O debate recente sobre a necessidade de “maturação administrativa” das controvérsias, apresentado como avanço civilizatório e racionalização do sistema de Justiça, revela exatamente esse ponto de inflexão.
Em abstrato, a ideia parece virtuosa: evitar a judicialização prematura, estimular soluções extrajudiciais, preservar a eficiência institucional. O problema não está no conceito. Está no país real onde se pretende aplicá-lo.
O Brasil não é um ambiente de simetria institucional. É um país marcado por desigualdade estrutural, por concentração de poder econômico, por captura administrativa e por uma longa tradição de confundir legalidade com justiça. Nesse contexto, a via administrativa raramente é espaço neutro de solução técnica. Com frequência, é instrumento de dilação estratégica, de desgaste do mais fraco, de blindagem dos que podem comprar tempo, pareceres e silêncio.
Exigir que o cidadão, o consumidor ou o vulnerável percorra previamente esse caminho para só então ser considerado portador de “interesse de agir” não qualifica o acesso à Justiça. Condiciona-o à resistência física, emocional e econômica. Não se está organizando o sistema; está-se selecionando quem pode suportar o percurso.
O Judiciário existe, historicamente, como contrapeso ao poder. Não como prêmio a quem venceu uma maratona burocrática. Quando o processo passa a ser tratado como risco sistêmico — e não como instrumento de contenção do abuso — algo se inverte na lógica civilizatória.
O problema central da Justiça brasileira hoje não é o excesso de demandas, mas a falta de efetividade. Não se executa com firmeza. Não se enfrenta o grande litigante habitual. Não se impõem consequências reais ao abuso reiterado. E, diante disso, desloca-se o foco: em vez de fortalecer a decisão judicial, estreita-se a porta de entrada.
Chamar isso de “qualificação do acesso” é um eufemismo perigoso. Em muitos casos, trata-se apenas de dificultar a tutela jurisdicional sob o verniz da técnica, em um ambiente já corroído pela ausência de civismo, pela erosão da moral pública e pela naturalização do privilégio.
Justiça que depende de filtros excessivos deixa de ser Justiça e passa a ser triagem social. E um sistema que pede paciência infinita ao vulnerável, mas tolera a estratégia abusiva do poderoso, já fez sua escolha — ainda que se esconda atrás de conceitos elegantes.
E quando a Justiça começa a exigir provas de resistência antes mesmo de existir proteção, o que se tem não é racionalidade institucional. É o retrato nu de uma sociedade que perdeu o senso de amor ao próximo, de responsabilidade coletiva e de limite moral ao poder.
Não é o processo que está sendo banalizado.
É a injustiça que está sendo normalizada.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Os problemas com o conservadorismo atual

 


Há dois sentidos possíveis para o termo “conservador”. O primeiro classifica como conservador alguém que normalmente apoia o status quo, ou seja, uma pessoa que deseja conservar as leis, as regras, as regulações e os códigos morais e comportamentais que existem em um determinado ponto no tempo.

Dado que diferentes leis, regras e instituições políticas existiram em tempos diferentes e/ou em locais diferentes, aquilo que um conservador apoia depende do lugar e do tempo, modificando-se de acordo. Portanto, nesse sentido, ser um conservador não denota nada de específico, exceto gostar da ordem existente, qualquer que seja ela.

O primeiro sentido, então, pode ser descartado. O termo “conservador”, portanto, deve possuir uma acepção diferente. O único significado que ele pode ter é este: “conservador” se refere a alguém que acredita na existência de uma ordem natural, de um estado de coisas natural, que corresponde à natureza das coisas; que se harmoniza com a natureza e o homem.

Essa ordem natural, é claro, pode ser perturbada por acidentes e anomalias: terremotos e furacões; doenças e pragas; pelo surgimento de desajustados e idiotas; e por guerras, conquistas e tiranias. Mas não é difícil distinguir o normal do anormal (anomalias); o essencial do acidental.

Um pouco de abstração dissipa todas as confusões e permite que quase todos “vejam” o que é e o que não é natural, o que se encontra e não se encontra de acordo com a natureza das coisas. Além disso, o natural é, ao mesmo tempo, o estado de coisas mais duradouro. A ordem natural das coisas é antiga e sempre a mesma (apenas anomalias e acidentes sofrem mudanças); portanto, ela pode ser reconhecida por nós em todos os lugares e em todos os tempos.

“Conservador” refere-se a alguém que sabe distinguir aquilo que é antigo e natural daquilo que representam anomalias e acidentes circunstanciais. Conservador é alguém que defende, apoia e ajuda a preservar o tradicional e o natural contra aquilo que é temporário e o anômalo.

No âmbito das ciências humanas, incluindo as ciências sociais, o conservador reconhece que as famílias (pais, mães, filhos, netos) e os lares familiares que têm base na propriedade privada e na cooperação voluntária com os outros lares familiares como sendo as unidades sociais mais fundamentais, mais naturais, mais essenciais, mais antigas e mais indispensáveis.

Adicionalmente, a família (o lar familiar) também representa o modelo da ordem social em geral. Assim como existe uma ordem hierárquica no seio de uma família, há uma ordem hierárquica dentro de uma comunidade de famílias — de aprendizes e servos, e de mestres, vassalos, cavaleiros, lordes, senhores feudais e até mesmo reis — vinculada por um elaborado e complexo sistema de relações de parentesco. E há uma ordem hierárquica dentro de uma comunidade de crianças, pais, sacerdotes, bispos e cardeais, patriarcas ou papas e, finalmente, um Deus transcendente.

Das duas camadas de autoridade, o poder físico terreno de pais, lordes e reis encontra-se naturalmente subordinado e submetido ao controle da máxima autoridade espiritual e intelectual de padres, sacerdotes, bispos e, por fim, Deus.

Os conservadores (ou, mais especificamente, os conservadores ocidentais greco-cristãos), caso eles apoiem alguma coisa, apoiam e desejam preservar a família, as hierarquias sociais e as camadas de autoridade material e espiritual/intelectual baseadas em — e decorrentes de — laços familiares e em relações de parentesco.

Os problemas com o conservadorismo contemporâneo

O conservadorismo moderno mostra-se confuso e distorcido. Essa confusão decorre em grande parte da democracia.

Sob a influência da democracia representativa, e com a transformação dos EUA e da Europa em democracias de massa após a Primeira Guerra Mundial, o conservadorismo, que era uma força ideológica anti-igualitarista, aristocrática e antiestatista, passou a ser um movimento de estatistas culturalmente conservadores: isto é, formado pela ala direita dos socialistas e dos social-democratas.

maioria dos autoproclamados conservadores contemporâneos está preocupada — como, na verdade, deveria estar — com a decadência das famílias, com o divórcio, com a ilegitimidade, com a perda da autoridade, com o multiculturalismo, com os estilos de vida alternativos, com a desintegração do tecido social, com a promiscuidade e com a criminalidade. Todos esses fenômenos representam anomalias e desvios escandalosos da ordem natural.

O conservador, com efeito, deve se opor a todos esses acontecimentos e tentar restabelecer a normalidade. No entanto, a maior parte dos conservadores contemporâneos (pelo menos a maioria dos porta-vozes do establishment conservador) não reconhece que o seu objetivo de restaurar a normalidade exige mudanças sociais mais drásticas — até mesmo revolucionárias e antiestatistas.

Os conservadores que estão genuinamente preocupados com a desagregação familiar ou com a disfunção e a devassidão cultural deveriam começar a centrar sua artilharia justamente naqueles órgãos estatais responsáveis pela proliferação da poluição moral e cultural — como o Ministério da Educação, o Ministério da Cultura, e todos os demais programas de governo que propõem políticas racialistas e feministas. Todos eles devem ser fechados ou diminuídos em tamanho.

O problema é que, entre os conservadores, ainda não se vê essa oposição inflexível ao envolvimento do estado no campo educacional. Não há o reconhecimento de que a ordem natural na educação significa que o estado não tem nada a ver com ela. A educação é um assunto totalmente familiar.

Além disso, não há o reconhecimento de que a degeneração moral e a promiscuidade cultural possuem causas mais profundas, não podendo ser simplesmente curadas por modificações no currículo escolar (impostas pelo estado) ou por exortações e declamações.

Pelo contrário: os atuais conservadores afirmam que a virada cultural — o restabelecimento (a restauração) da normalidade — pode perfeitamente ser alcançada sem uma mudança fundamental na estrutura do moderno estado de bem-estar social (assistencialista). Quase todos os conservadores defendem explicitamente as três instituições centrais do estado de bem-estar social: a previdência social (seguridade social), a saúde pública (estatal) e o seguro-desemprego.

Eles ainda desejam ampliar as responsabilidades “sociais” do estado, atribuindo-lhe a tarefa de “proteger” os empregos na indústria nacional — por meio de restrições à importação e desvalorizações cambiais.

Sendo assim, há uma questão fundamental a ser abordada: partindo do princípio de que o conservadorismo cultural e a economia social/socialista podem ser psicologicamente combinados (isto é, admitindo que as pessoas possam manter simultaneamente essas duas visões sem sofrerem dissonância cognitiva), será que eles podem também ser combinados em termos de eficácia e de prática (econômica e praxeologicamente)?

É possível manter o nível atual de socialismo econômico (previdência social, seguro-desemprego, saúde e educação estatais, entre outras coisas) e alcançar a meta de restaurar a normalidade cultural (as famílias naturais e as regras normais de conduta)?

A maioria dos conservadores não sente a necessidade de levantar esse tema, pois acreditam que a política é apenas uma questão de vontade e poder. Eles não acreditam em coisas como as leis econômicas. Caso as pessoas desejem alguma coisa e tenham o poder de implementar a sua vontade, tudo pode ser alcançado. Ludwig von Mises caracterizava essa crença como “historicismo”, que era a postura intelectual dos Kathedersozialisten alemães, os acadêmicos Socialistas de Cátedra, os quais justificavam todas e quaisquer medidas estatistas.

Mas o desprezo historicista e a ignorância da ciência econômica não alteram o fato de que existem inexoráveis leis econômicas. Nenhum desejo ou pensamento mágico pode fazer com que tais leis desapareçam. Acreditar no contrário somente pode resultar em fracasso real.

“Na verdade”, observou Mises, “a história econômica é um longo registro de políticas governamentais que fracassaram porque foram projetadas e implementadas com um ousado desrespeito às leis da economia”. À luz das elementares e imutáveis leis econômicas, o programa do conservadorismo atual é apenas um sonho ousado, mas impossível. Nenhum desejo pode alterar o fato de que a manutenção das instituições centrais do atual estado de bem-estar social (assistencialista) e o restabelecimento da família, das normas, da conduta e da cultura tradicionais são metas incompatíveis. Você pode ter ou um — o socialismo (o bem-estar social) — ou outro — a moral tradicional –, mas você não pode ter ambos simultaneamente, pois tais características socialistas (os pilares do atual sistema estatal de bem-estar social que alguns conservadores pretendem deixar intactos) é a própria causa das anomalias culturais e sociais.

A fim de esclarecer esse ponto, é necessário tão-somente recordar uma das leis mais fundamentais da economia que assevera que toda redistribuição compulsória de riqueza ou de renda, independentemente dos critérios em que se baseia, implica tomar à força de alguns — os ricos (os possuidores de algo) — e dar a outros — os pobres (os não possuidores de algo). Assim, o incentivo para ser um possuidor é reduzido, e o incentivo para ser um não-possuidor é estimulado.

Aquilo que o possuidor tem é, caracteristicamente, algo considerado “bom”; e aquilo que o não-possuidor não tem é algo “ruim” ou uma deficiência. Na verdade, esta é a ideia subjacente a qualquer redistribuição: alguns possuem muitas coisas boas, e outros não possuem o suficiente dessas coisas.

O resultado de toda redistribuição, portanto, é que serão produzidos menos bens e cada vez mais males, menos perfeição e mais deficiências. Com a prática de subsidiar com fundos públicos (recursos tomados à força de outros) as pessoas que são pobres, mais pobreza será criada. Com a prática de subsidiar determinados indivíduos porque estes estão desempregados, mais desemprego será criado. Com a prática de subsidiar as mães solteiras, haverá mais mães solteiras e mais filhos ilegítimos.

Obviamente, esse insight fundamental se aplica a todo o sistema (assim denominado) de Previdência Social, o qual foi criado ainda em 1880 na Europa Ocidental. Trata-se, em teoria, de um sistema de “seguro” governamental compulsório contra a velhice, contra a doença, contra os acidentes de trabalho, contra o desemprego, e contra a indigência (entre tantos outros problemas). Em conjunto com o (ainda mais antigo) sistema compulsório de educação pública, essas instituições e essas práticas equivalem a um ataque maciço contra a instituição da família e a responsabilidade pessoal (individual).

Com a prática de aliviar os indivíduos da obrigação de prover os seus próprios rendimentos, a sua própria saúde, a sua própria segurança, a sua própria velhice e a educação das suas próprias crianças, um comportamento mais imediatista passa a ser adotado em detrimento de um comportamento mais frugal e de uma visão mais voltada para o longo prazo. Igualmente, o valor do casamento, da família, dos filhos e das relações de parentesco também é diminuído.

A irresponsabilidade, o imediatismo, a aversão a uma visão de longo prazo, a negligência, a doença e o descuido são promovidos; e a responsabilidade, a visão de longo prazo, a diligência, a saúde e a conservação são desencorajadas e punidas.

O sistema de Previdência Social compulsório, com a sua prática de subsidiar os aposentados (os velhos) por meio dos impostos cobrados dos atuais assalariados e criadores de riqueza (os jovens), enfraqueceu sistematicamente o natural vínculo intergeracional entre pais, avós e filhos. Os idosos, caso não tenham feito qualquer poupança para a sua própria velhice, já não mais precisam contar com a ajuda dos seus filhos; e os jovens (os quais, em geral, possuem menos riqueza acumulada) devem sustentar os velhos (os quais, normalmente, detêm mais riqueza acumulada) — em vez de as coisas serem o contrário (como é típico no seio das famílias).

Assim, no mundo de hoje, as pessoas não só desejam ter menos filhos — e, de fato, as taxas de natalidade caíram pela metade desde o início das modernas políticas de Previdência Social (assistencialistas) –, mas também o respeito que os jovens tradicionalmente concediam aos seus anciãos é diminuído, e todos os indicadores de desintegração (e de disfunção) familiar — como as taxas de divórcio, de ilegitimidade, de abuso por parte dos filhos, de abuso por parte dos pais, de maus tratos conjugais, de família monoparental, de celibato, de estilos de vida alternativos e de aborto — aumentaram.

Ademais, com a socialização (estatização) do sistema de saúde e da regulação estatal do setor de seguros (restringindo o direito de recusa das seguradoras; isto é, o direito delas de excluir qualquer risco individual como impossível e de discriminar livremente, de acordo com métodos atuariais, diferentes grupos de riscos), criou-se uma máquina monstruosa de redistribuição de riqueza e de renda. E tudo à custa de pessoas responsáveis e de grupos de baixo risco e em favor de indivíduos irresponsáveis e de grupos de alto risco.

Os subsídios para os doentes (os enfermos) e os incapacitados (os inválidos) fomentam a doença (a enfermidade) e a incapacitação (a invalidez) e enfraquecem a vontade de trabalhar para o próprio sustento e de levar uma vida saudável. Não é possível fazer melhor do que citar Ludwig von Mises mais uma vez:

“Não existe uma fronteira claramente definida entre a saúde e a doença. Estar doente não é um fenômeno independente de vontade consciente e de forças psíquicas atuando no subconsciente.  A eficiência de um homem não é meramente o resultado de sua condição física; ela depende amplamente de sua mente e de sua determinação. 

O aspecto destrutivo do seguro-saúde e do seguro contra acidentes está, acima de tudo, no fato de que tais instituições promovem (subsidiam) acidentes e doenças, retardam a recuperação, e muito frequentemente criam, ou de alguma forma intensificam e prolongam, os distúrbios funcionais que se seguem às doenças ou aos acidentes.

Sentir-se saudável é bem diferente de estar saudável no sentido médico. Ao enfraquecer ou destruir completamente a vontade de estar bem e apto para o trabalho, a seguridade social cria doença e incapacidade de trabalho; ela produz o hábito da lamúria, que por si só é uma neurose, além de neuroses de outros tipos.

Como instituição social, ela adoenta as pessoas tanto corporeamente quanto mentalmente — ou, no mínimo, ajuda a multiplicar, prolongar e intensificar enfermidades. A seguridade social, dessa forma, fez com que a neurose do segurado se tornasse uma perigosa doença pública. Caso essa instituição seja ampliada e desenvolvida, a doença irá se espalhar. E não há reforma alguma que possa ajudar. Não se pode enfraquecer ou destruir o desejo de se ter saúde sem que isso acabe produzindo mais enfermidades”.

O que já deveria estar claro para os conservadores é que a maior parte, se não a totalidade, da degradação moral e da devassidão cultural — que são claros sinais de retrocesso civilizatório — que verificamos ao nosso redor são os resultados inevitáveis e inescapáveis do estado de bem-estar social (assistencialista) e das suas principais instituições.

Os conservadores clássicos, ao estilo antigo, sabiam disso; e eles se opuseram vigorosamente à educação pública e à Previdência Social. Eles sabiam que os estados em qualquer parte do mundo intencionavam deteriorar, e, em última análise, destruir, as famílias (bem como as instituições, as camadas e as hierarquias de autoridade que são a consequência natural das comunidades baseadas em famílias) para, então, aumentar e reforçar o seu próprio poder.

Eles sabiam que, a fim de fazê-lo, os estados teriam de tirar proveito da revolta natural dos adolescentes (dos jovens) contra a autoridade paternal. E eles sabiam que a educação socializada e a responsabilidade socializada eram os meios de atingir essa meta. A educação pública e a Previdência Social fornecem uma possibilidade para os jovens rebeldes de escapar da autoridade paternal (de escapar de punições por comportamentos impróprios).

Os velhos conservadores sabiam que essas políticas emancipariam o indivíduo da disciplina imposta pela vida familiar e comunitária apenas para submetê-lo, em vez disso, ao controle direto e imediato do estado. Adicionalmente, eles sabiam — ou pelo menos tinham um palpite sobre isso — que tais práticas conduziriam a uma infantilização sistemática da sociedade; a um retrocesso, tanto em termos emocionais quanto em termos mentais (intelectuais), da idade adulta para a adolescência ou a infância.

A ideia de combinar o conservadorismo cultural com o estatismo de bem-estar social (assistencialista) é impossível, sendo, portanto, um disparatado absurdo econômico. O estatismo de bem-estar social — na prática, não importando a maneira ou a forma, trata-se de previdência social — fomenta a degradação e a degeneração moral e cultural. Assim, se há uma genuína preocupação com a decadência moral da sociedade e se há o desejo de que se restabeleça a normalidade no tocante à sociedade e à cultura, é necessário opor-se a todos os aspectos do moderno estado assistencialista.

O retorno à normalidade exige, no mínimo, a completa eliminação do atual sistema de Previdência Social (do seguro-desemprego, da seguridade social, da saúde pública, da educação pública, e dos Ministérios relacionados a essas questões) e, em seguida, a dissolução completa do aparato estatal e do poder governamental atual. Se o objetivo é restaurar a normalidade, os recursos e o poder do governo devem diminuir até os níveis apresentados no século XIX ou mesmo ficar abaixo deles.

Portanto, os verdadeiros conservadores devem ser libertários de linha dura (antiestatistas). O conservadorismo de hoje é falso: ele deseja o retorno à moralidade tradicional, mas ao mesmo tempo defende a manutenção das próprias instituições responsáveis pela perversão e pela destruição da moral tradicional.

O problema com alguns autoproclamados libertários

A fim de restabelecer a normalidade social e cultural, os verdadeiros conservadores só podem ser libertários radicais, e eles devem exigir a demolição de toda a atual estrutura do aparato estatal, pois ela é uma perversão moral e econômica.

No entanto, há uma conhecida resistência de vários conservadores ao libertarianismo. Não desejo aqui aprofundar a análise ou a defesa da teoria libertária. Em vez disso, desejo voltar à questão da relação entre o libertarianismo e o conservadorismo (a crença em uma ordem social natural baseada e centrada nas famílias). Alguns comentaristas superficiais — principalmente do lado conservador –, como Russell Kirk, caracterizaram o libertarianismo e o conservadorismo como ideologias incompatíveis, hostis ou até mesmo antagônicas. [i] 

Na verdade, esse ponto de vista está completamente errado. A relação entre o libertarianismo e o conservadorismo é uma relação de compatibilidade praxeológica, de complementaridade sociológica e de reforço recíproco.

Para explicar isso, deixem-me enfatizar, em primeiro lugar, que a maioria — mas não a totalidade — dos principais pensadores libertários, como uma questão de dado empírico, era formada por conservadores sociais e culturais: por defensores dos costumes e da moralidade burgueses tradicionais.

Mais notadamente, Murray Rothbard — o pensador libertário mais importante e mais influente — era um assumido conservador cultural. Também o era o professor mais importante de Rothbard, Ludwig von Mises. (Ayn Rand, uma outra grande influência sobre o libertarianismo contemporâneo, é um caso diferente, é claro.) [ii] 

Embora isso não revele muito (prova-se apenas que o libertarianismo e o conservadorismo podem ser psicologicamente reconciliados), trata-se de um indicativo de uma afinidade substancial entre as duas doutrinas. Não é difícil reconhecer que a visão conservadora e a visão libertária da sociedade são perfeitamente compatíveis (congruentes).

Não irei me estender aqui em todas as explicações sobre o porquê de ser assim.  Irei apenas me limitar a dizer que a teoria libertária pode realmente fornecer ao conservadorismo uma definição mais precisa e uma defesa moral mais rigorosa do seu próprio objetivo (o retorno à civilização sob a forma de normalidade moral e cultural) do que o próprio conservadorismo jamais conseguiria elaborar. Ao fazê-lo, ela pode afiar e fortalecer a tradicional visão de mundo antiestatista do conservadorismo. [iii]

O problema que quero abordar é outro.

Ainda que os criadores intelectuais do libertarianismo moderno fossem conservadores culturais — e ainda que a doutrina libertária seja totalmente compatível (congruente) com a visão de mundo conservadora (não implicando, como alegam alguns críticos conservadores, um “individualismo atomístico” e um “egoísmo ganancioso”) –, o movimento libertário sofreu uma transformação significativa.

Em larga medida (e de forma completa aos olhos da mídia e do público), ele se tornou um movimento que combina o antiestatismo radical e a economia de mercado com o esquerdismo cultural, o multiculturalismo e o hedonismo pessoal. Ou seja, ele é exatamente o contrário de um programa culturalmente conservador: trata-se de um capitalismo contracultural.

Lamentavelmente, muito do libertarianismo contemporâneo é falso, sendo, na verdade, um libertarianismo contraproducente (assim como as atuais correntes predominantes do conservadorismo).

O fato de que grande parte do libertarianismo moderno é culturalmente esquerdista não se deve a inclinações dessa natureza entre os principais teóricos libertários. Conforme foi observado, eles eram, em sua maioria, conservadores culturais. Em vez disso, trata-se do resultado de uma compreensão superficial da doutrina libertária por muitos dos seus fãs e seguidores; e essa ignorância encontra a sua explicação em uma coincidência histórica e na mencionada tendência (inerente e ínsita) do estado social-democrático assistencialista (de bem-estar social) a promover um processo de infantilização intelectual e emocional (processo de descivilização da sociedade).

O movimento libertário moderno começou nos Estados Unidos na metade da década de 1960. Em 1971, o Partido Libertário americano foi fundado; e, em 1972, o filósofo John Hospers foi nomeado o seu primeiro candidato presidencial.  Era o tempo da Guerra do Vietnã.

Ao mesmo tempo, promovido pelos grandes “avanços” no crescimento do estado de bem-estar social (assistencialista) a partir do início e da metade da década de 1960 nos Estados Unidos e, da mesma forma, na Europa Ocidental (a chamada legislação dos direitos civis e a guerra contra a pobreza), surgiu um novo fenômeno de massa. Emergiu um novo “lumpenproletariado” de intelectuais e de jovens intelectualizados — os produtos de um sistema em constante expansão de educação socialista (pública) — “alienados” da moralidade e da cultura do mainstream “burguesa” (mesmo vivendo com muito mais conforto do que o lumpenproletariado de antigamente graças à riqueza criada por essa cultura dominante).

O multiculturalismo e o relativismo cultural (“viva e deixe viver”) e o antiautoritarismo igualitarista (“não respeite nenhuma autoridade”) deixaram de ser meras fases temporárias e transitórias de desenvolvimento mental (adolescência) e foram elevadas ao status de atitudes permanentes entre intelectuais adultos e os seus alunos.

A oposição íntegra (com princípios) dos libertários à guerra do Vietnã coincidiu com uma oposição pouco difusa da nova esquerda a essa guerra. Adicionalmente, a conclusão anarquista da doutrina libertária atraiu e agradou a esquerda contracultural. Afinal, a ilegitimidade do estado e o axioma da não agressão (segundo o qual não se permite a iniciação — ou a ameaça da iniciação — do uso da força física contra outras pessoas e os seus bens) não implicavam que todos tivessem a liberdade de escolher o seu próprio estilo de vida não agressivo?  Isso não implicava que a vulgaridade, a obscenidade, a grosseria, o uso de drogas, a promiscuidade, a pornografia, a prostituição, o homossexualismo, a poligamia, a pedofilia ou qualquer outra anormalidade imaginável, na medida em que constituíam crimes sem vítimas, fossem estilos de vida e atividades perfeitamente normais e legítimos?

Portanto, não é de se surpreender que, a partir do seu início, o movimento libertário atraiu um número anormalmente elevado de seguidores desequilibrados e perversos.

Subsequentemente, o ambiente contracultural e a “tolerância” multicultural e relativista do movimento libertário atraiu um número ainda maior de desajustados, de fracassados (tanto em termos pessoais quanto em termos profissionais) ou de simples derrotados. Murray Rothbard, em nojo, chamou-os de “libertários vazios” e os identificou como libertários “modais” (típicos e representantes).

Eles fantasiavam uma sociedade em que todos estariam livres para escolher e cultivar
quaisquer estilos de vida, carreiras ou características que não fossem agressivos e em que, graças à economia de livre mercado, todos poderiam fazê-lo em um nível elevado de prosperidade geral.

Ironicamente, o movimento que estabeleceu o objetivo de desmantelar o estado e de restaurar a propriedade privada e a economia de mercado foi, em larga medida, apropriado e moldado em sua face externa pelos produtos mentais e emocionais do estado de bem-estar social (assistencialista): a nova classe de adolescentes permanentes. [iv]

 

[i] Ver Russell Kirk, The Conservative Mind (Chicago: Regnery, 1953); e idem, A Program for Conservatives (Chicago: Regnery, 1955).

[ii] Sobre Murray N. Rothbard, ver os tributos a Rothbard: In Memoriam, editado por Llewellyn H. Rockwell Jr. (Auburn, Alabama: Ludwig von Mises Institute, 1995), especialmente o tributo de Joseph T. Salerno; sobre Ludwig von Mises, ver: Murray N. Rothbard, Ludwig von Mises: Scholar, Creator, Hero (Auburn, Alabama: Ludwig von Mises Institute, 1988); Jeffrey A. Tucker e Llewellyn H. Rockwell Jr., “The Cultural Thought of Ludwig von Mises”, em Journal of Libertarian Studies, 10, n. 1 (1991); sobre Ayn Rand, ver: Tuccille, It Usually Begins with Ayn Rand; Murray N. Rothbard, The Sociology of the Ayn Rand Cult (Burlingame, California: Center for Libertarian Studies, [1972] 1990); e, da perspectiva dos prosélitos de Rand (“randianos”), ver Barbara Branden, The Passion of Ayn Rand (Garden City, N. Y.: Doubleday, 1986).

[iii] Sobre a relação entre o conservadorismo (tradicionalista) e o libertarianismo (racionalista), ver Ralph Raico, “The Fusionists on Liberalism and Tradition”, em New Individualist Review, 3, n. 3 (1964); M. Stanton Evans, “Raico on Liberalism and Religion”, em New Individualist Review, 4, n. 2 (1966); Ralph Raico, “Reply to Mr. Evans”, em ibidem; ver também: Freedom and Virtue: The Conservative Libertarian Debate, editado por George W. Carey (Lanham, Maryland: University Press of America, 1984).

[iv] Murray N. Rothbard forneceu o seguinte retrato do “libertário modal” (LM):

Na verdade, o LM é homem. (…) O LM se encontrava na faixa dos seus vinte anos há vinte anos e, agora, encontra-se na faixa dos seus quarenta anos. Isso não é nem tão banal nem tão benigno como parece, pois significa que o movimento realmente não cresceu nos últimos vinte anos. (…) O LM é bastante promissor e bastante versado na teoria libertária. Mas ele não sabe nada e não se interessa pela história, pela cultura, pelo contexto da realidade ou pelos assuntos mundiais. (…) O LM, infelizmente, não odeia o estado por vê-lo como o instrumento social exclusivo da agressão organizada contra a pessoa e a propriedade. Em vez disso, o LM é um adolescente que se rebela contra todos ao seu redor: em primeiro lugar, contra os seus pais; em segundo lugar, contra a sua família; em terceiro lugar, contra os seus vizinhos; e, por fim, contra a própria sociedade. Ele se opõe especialmente às instituições da autoridade social e cultural: em particular, à burguesia da qual ele proveio, às normas e às convenções burguesas e às instituições da autoridade social (como as igrejas).

Para o LM, então, o estado não é o único problema; ele é apenas a parte mais visível e mais detestável das várias instituições burguesas odiadas: vem daí o estusiasmo com que o LM aperta o botão do ‘questione a autoridade’.

E daí se origina também a fanática hostilidade do LM ao cristianismo. Eu costumava pensar que esse ateísmo militante era apenas uma função do randianismo do qual a maioria dos libertários modernos surgiu há duas décadas. Mas o ateísmo não é a chave — pois aquele que anunciasse, em uma reunião libertária, que era um bruxo ou um adorador do cristal de energia ou de alguma besteira da Nova Era seria tratado com grande tolerância e respeito. Somente os cristãos eram os alvos dos abusos; e, claramente, a razão dessa diferença de tratamento não tinha nada a ver com o ateísmo.

Isso tinha tudo a ver com a rejeição (e o desprezo) pela cultura burguesa; e todo tipo de causa cultural maluca seria promovido a fim de torcer o nariz da odiada burguesia.

Na verdade, a atração original do LM pelo randianismo era parte integrante da sua revolta adolescente: que maneira de racionalizar e sistematizar a rejeição aos pais, familiares e vizinhos seria melhor do que aderir a um culto que denunciava a religião e que proclamava a superioridade absoluta de si mesmo (do ego) e dos seus cultuados líderes, em contraste com os robóticos ‘intermediários’ que supostamente povoavam o mundo burguês? Um culto que, além disso, conclama os seus prosélitos a desprezar os pais, a família e os associados burgueses e a cultivar a suposta grandeza do próprio ego individual (convenientemente orientado, é claro, pela liderança randiana).

 O LM também possui o ‘olhar longínquo’ dos fanáticos. Ele está apto a agarrar você pela força na primeira oportunidade e a discorrer extensamente sobre as suas próprias ‘grandes descobertas’ contidas em seu poderoso manuscrito que está clamando para ser publicado, mas que nunca será publicado — e ele diz que isso é uma conspiração do poder constituído. (…) Mas, acima de tudo, o LM é um vadio, um vigarista e, muitas vezes, um verdadeiro bandido. A sua atitude básica em relação aos outros libertários é ‘a sua casa é a minha casa’. (…) Em suma, articulem eles ou não essa ‘filosofia’, os [LMs] são comunistas libertários: alguém que possua propriedade automaticamente tem de ‘compartilhá-la’ com os demais membros da sua ‘família’ libertária ampliada.

(Murray N. Rothbard, “Why Paleo?”, em Rothbard—Rockwell Report, 1, n. 2 [maio de 1990]: 4–5; ver também: idem, “Diversity, Death and Reason”, em Rothbard—Rockwell Report, 2, n. 5 [maio de 1991]).